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Carta #5 — Quando o barato sai caro

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Quando o empreendedor começa a escalar as vendas, qualquer perspectiva de redução de custos parece, num primeiro momento, ser uma boa. No entanto, diminuir o custo unitário de um produto pode ser uma péssima ideia. Quando a economia exige comprar muito mais do que o seu giro comporta.

Em 2016 iniciamos a produção de um novo produto para enxoval. Nas nossas adaptações percebi que para evitar que a fibra saísse pelas tramas do tecido seria necessário colocar o enchimento forrado dentro. 

Compramos o material por metro, o valor unitário era bem baixo. O metro do cetim custava algo entre 8 e 10 reais e a cada 2,5 metros confeccionaríamos 5 enchimentos. Contudo, começamos a revender bastante esse produto, em especial para lojistas e nos apareceu a oportunidade de comprar o cetim direto da importadora, com isso o metro do cetim passaria a custar 1/7 do que nós pagávamos comprando em metro o que tornaria o custo desse material no produto final praticamente insignificante.  

Quem não gostaria de reduzir o custo de um produto em 10% apenas comprando em volume? Isso geraria uma margem de lucro muito maior no atacado e no varejo. Cenário perfeito!

Só que não…

Fizemos a compra, precisamos comprar 12 rolos de cetim com 50 metros em cada rolo.

Nem parecia ser tanta coisa: 

Cada rolo seria suficiente para fabricarmos 100 produtos. Apenas não fizemos uma conta: teríamos 600 metros de cetim,  material para 1200 produtos sendo que nossa média mensal de vendas desse produto era de 25 unidades. O que, de cara, apontava para um desbalanço no estoque: era matéria prima para 48 meses, ou seja, 4 anos de vendas!  

Os rolos chegaram e ocuparam um espaço grandioso no nosso estoque. Eram pesados e não podiam ser guardados em pé, precisavam ficar deitados. O prazo de pagamento foi de 30/60/90, o que resultou em uma antecipação de saída de caixa significativa. Eu sei que nem sempre a gente consegue trabalhar com estoque de matéria-prima no melhor prazo possível, mas material parado no depósito por mais de 6 meses já pode causar um grande desbalanço no capital de giro e no fluxo de caixa.

Mas não para por aí, o ápice de vendas desse produto foi até 2018, ou seja, não chegou a 24 meses e meu estoque seria suficiente para 48 meses, lembra? Aos poucos fui parando de produzir e divulgar esse produto, mas os rolos no estoque sempre me lembraram dessa fatídica decisão de compra.

Vergonha

Chegamos a 2026, uma década depois e eu ainda tenho 2 rolos desse cetim, já vendi rolos inteiros, já produzi itens para doação com esse material e ele continua lá, firme e forte. Mais que ocupar um espaço no meu depósito ele escancara uma falha estratégica da qual eu sinto vergonha. Que economia foi essa que me obrigou a antecipar em até uma década o pagamento do material? Que me fez vender a preço de custo anos depois parte do excedente e que me obrigou a criar outros itens para dar destino ao cetim?

Preciso considerar que isso aconteceu há 10 anos, ou seja, estava com apenas 3 anos de empresa, no primeiro ano de expansão de vendas em atacado, vindo de sequências de bons resultados em feiras para público final. A esse cenário perfeito, eu somo a falta de maturidade empresarial e consigo dar um desconto para esse pequeno grande erro. Só me irrito quando converto o estoque em dinheiro e ajusto a inflação do período, ai, fica difícil perdoar aquela aprendiz de empresária, viu?
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Aliás, dez anos depois encontrei mais uma maneira de tentar dar fim a essa história: comecei a produzir fronhas de cetim anti-frizz com parte desse estoque. E você pode adiquiri-la aqui nesse link

Sério, parece piada, mas não é!

 

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