Era dezembro de 2018.
Aquele havia sido um ano de muitos projetos na empresa e de grandes questões na minha vida pessoal. Em maio, eu tinha viajado para Campinas para participar de uma das melhores feiras da história da Colo de Mãe. Daquelas que superam todas as metas e em que, na hora de conferir o extrato da maquininha, a gente ainda descobre vendas que esqueceu de anotar.
Sério. Sucesso total!
Por isso, quando surgiu a segunda edição, no final de novembro, minha expectativa era uma só: superar a anterior. Para tanto, reforcei o estoque, criei produtos pensando no público local, contratei um stand maior e fiz o checklist de quem já estava acostumada a participar de feiras: divulgação para a base de clientes da região, redes sociais, impulsionamento para cidades próximas, material de divulgação, ações para estimular a recompra. E fiz, sozinha, uma cama montessoriana de ripas de pinus para destacar nossos lençóis e rolos de plush.
Estava tudo certo. Eu fecharia o ano com chave de ouro.
E aquilo era particularmente importante para mim. Já que no ano anterior, eu havia encerrado a sociedade da Colo de Mãe. E, na vida pessoal, vinha de um aborto e de uma gravidez tubária. Três meses antes daquela feira, tinha passado por uma cirurgia para retirar minha segunda tuba uterina, tornando impossível uma nova gravidez por meios convencionais. Guarde essa informação porque éla vai fazer sentido daqui a pouco.
O material da feira foi para Campinas de caminhão. Eu fui de ônibus com uma amiga empreendedora. Dessa vez éramos quatro expositores saindo de Curitiba. Quando chegamos para a montagem, percebi algo estranho. Tinha espaço vazio demais. Ganhei até um stand maior, muito bem localizado. Parecia sorte, mas era um sinal.
Já no primeiro dia, o público foi baixíssimo e as vendas não chegaram a um terço da minha meta. Ok, era uma feira de quatro dias. Conversei com a organização e, segundo eles, estava tudo sob controle. Obviamente não estava.
Depois descobrimos que os lojistas do shopping onde ficava o centro de exposições haviam se revoltado com a divulgação interna feita na edição anterior. A feira tinha atraído clientes do shopping e, naquela edição, a organização foi impedida de divulgar o evento por lá. Descobrimos também que outra feira de gestantes havia acontecido na cidade poucos dias antes. Os organizadores das duas feiras eram arquirrivais e a disputa entre eles conseguiu um
a proeza: dividir um público e prejudicar os expositores dos dois lados. E, obviamente, nenhuma dessas variáveis estava no meu belíssimo checklist.
Então comecei a fazer aquilo que todo pequeno empreendedor aprende, querendo ou não, a fazer: improvisar. Conversei com outros expositores. Fizemos vendas e permutas. Aumentei as postagens. Mostrei nas redes os produtos que estavam sendo “sucesso” na feira. Tentava movimentar o caixa e, junto com ele, manter meu próprio otimismo funcionando. Mas a possibilidade de um grande prejuízo desmotiva até os mais persistentes.
No terceiro dia, finalmente chegou o fim de semana e o público aumentou. As metas, porém, continuavam muito distantes. E minha cabeça, trabalhava sem parar. Comecei a negociar produtos de tíquete mais alto com desconto. Mudei dezenas de vezes os produtos de lugar. Testei novas formas de exposição. Até descobrir que um dos expositores era dono de uma grande loja de produtos para bebês da cidade. Não pensei duas vezes e fui até o stand deles. Conversei com uma das vendedoras e consegui que ela enviasse uma mensagem minha para ele. Combinamos de conversar no último dia da feira.
O domingo chegou carregado de expectativas.
Eu precisava vender o máximo possível, conversar com aquele lojista, receber outros comerciantes que eu havia conseguido contatar pelas redes sociais, desmontar o stand inteiro e correr para a rodoviária porque nosso ônibus sairia pouco depois do encerramento da feira. E como aparentemente ainda faltava emoção naquela história, havia mais uma coisa.
Naquele domingo eu começaria a medicação da minha primeira fertilização in vitro. Eu tinha menstruado justamente no dia em que saí de Curitiba e viajei para a feira carregando um isopor com os medicamentos. Uma dose pela manhã e outra à noite. Feira, meta de vendas, possível prejuízo, funcionários dependendo do caixa da empresa, desmontagem, ônibus para Curitiba e uma fertilização in vitro começando. Tudo ao mesmo tempo.
Conversei com o lojista e ali mesmo ele fez um pedido grande, que seria enviado na semana seguinte. Aquela venda salvou a feira. Com o pedido, a empresa finalmente atingiria a meta mínima que eu precisava. Saí da negociação e fui para o depósito, que nada mais era que um grande salão escuro e acarpetado onde estavam nossas caixas, sacos e produtos. Me joguei sem titubear sobre os sacos de ninhos e almofadas de amamentação. E chorei. Era uma mistura de alívio, desespero, frustração, ansiedade, cansaço, hormônios e enjoo.
Enquanto eu lidava com tudo aquilo, precisava manter a equipe da Colo de Mãe motivada sem transmitir o tamanho da minha preocupação com o caixa. Precisava atender os clientes com entusiasmo. Precisava continuar comunicando que nossos produtos estavam fazendo sucesso porque, sim, pessoas comprando fazem outras pessoas desejarem comprar também. E precisava administrar o que estava acontecendo comigo.
Existe uma ideia de que devemos aprender a separar vida pessoal e profissional.
Eu tenho minhas dúvidas se isso é realmente possível, pois somos uma única pessoa desempenhando vários papéis ao mesmo tempo. Aquela feira me ensinou algo que carreguei para muitos outros momentos da empresa: planejar é indispensável. Mas nenhum planejamento elimina a incerteza. O que salvou aquela feira não estava no planejamento original. Foi perceber o que estava acontecendo, abandonar parte do plano e continuar procurando alternativas.
Empreender exige planejamento e também manter permanentemente abastecida uma espécie de caixa de ferramentas para resolver problemas. Porque algumas vezes o plano funciona e em outras, o cenário muda completamente. É nessas horas que uma boa ideia colocada em prática pode não transformar o limão em uma limonada maravilhosa, mas pode evitar que você tenha que engolir o limão inteiro.
Até a próxima carta,
Cassi