Existe no imaginário das pessoas uma ideia de que quem empreende pode trabalhar quando quiser. Uma série de livros sobre dedicar-se poucas horas e ter tempo para aproveitar sua vida e sua família foi lançada desde os anos 2000. Livros como “Trabalhe 4 horas por semana” de Timothy Ferriss, de 2007 ajudaram a popularizar o sonho de empreender para ter liberdade de tempo.
Empreendendo no universo materno eu vi muitas pequenas empresas surgirem como aliadas de mães que após a maternidade não queriam retornar ao mercado de trabalho formal ou não conseguiram. Certamente você conhece alguma mulher que abandonou uma carreira CLT após o nascimento dos filhos e abriu um pequeno negócio.
Até aí tudo bem, porque ter o próprio negócio flexibiliza seu dia. A grande questão é imaginar que isso traz paz e tranquilidade. Quando um pequeno empreendedor opta por fazer algo pessoal no horário em que os outros estão trabalhando, ele precisará fazer o seu trabalho quando os outros estão descansando.
Não existe mágica.
Mesmo quando você tem uma equipe, o descanso não é completo e, no meu caso, a ausência também vinha acompanhada de culpa. Quando meu filho nasceu, eu tinha uma equipe maravilhosa composta por supervisora de produção, funcionárias na produção e no administrativo, costureira e estagiários. Todas elas sabiam perfeitamente o que precisava ser feito para a engrenagem continuar rodando e foi graças a isso que eu consegui ficar quase 2 meses sem idas presenciais à empresa.
No entanto, no segundo dia do meu filho, quando ainda estávamos na maternidade nos conhecendo e passando por grandes adaptações, eu precisei fazer pagamentos no aplicativo do banco. E depois, quando retornei ao trabalho, ele ia comigo por meio período.
Seguimos 7 meses só nós dois e depois por mais um ano com babá. Então, ele entrou na escolinha com 1 ano e 7 meses por meio período para que eu pudesse me dedicar à empresa.
Existe uma imagem bonita da mãe empreendedora trabalhando enquanto o filho brinca ao lado. Eu vivi isso e posso dizer que, na prática, nem sempre é tão bonito assim. Uma empresa não foi pensada para ser um ambiente infantil. Na Colo de Mãe havia máquinas de costura, tesouras, agulhas, alfinetes, entrada e saída de pessoas. E trabalhar em casa ou enquanto a criança brinca também não significa necessariamente conseguir trabalhar: uma tarefa de meia hora pode levar duas quando você precisa interrompê-la constantemente para atender às necessidades do seu filho.
Quando optei pela escola em meio período, descobri algo que não esperava: ter menos horas disponíveis para trabalhar me tornou mais criteriosa sobre como usá-las. Se eu tinha aquele período para fazer a empresa funcionar, precisava priorizar aquilo que realmente deveria ser feito e reduzir o tempo gasto com tarefas que ocupavam meu dia, mas não geravam resultado.
Ter disponibilidade para ficar com o filho não é necessariamente estar disponível para o filho.
Você pode estar fisicamente com a criança e, ao mesmo tempo, fazendo um orçamento, respondendo um cliente no whatsApp ou resolvendo um problema de produção. Aquela máxima de “é o olho do dono que engorda o boi” é verdadeira. Muito da empresa se dá pelo exemplo, pela presença, pelas oportunidades encontradas no dia-a-dia. O empresário pode sim ter mais flexibilidade para treinar às 10h da manhã, ou cuidar de uma criança doente, mas ele tem responsabilidades que o farão trabalhar no período da noite, aos sábados, domingos e feriados se a demanda apertar.
O empreendedor não trabalha só quando quer. Ele é o motor da empresa, e para uma empresa ter resultado é preciso tempo e dedicação. Empreender pode dar autonomia sobre quando trabalhar, mas não elimina a quantidade de trabalho nem a responsabilidade pelo resultado.
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