Parece uma frase clichê: “O Obvio precisa ser dito!”, mas quem empreende vivencia constantemente com essa máxima. Algumas coisas que parecem óbvias para você podem ser informações relevantes para outras pessoas. E aqui eu não quero entrar no mérito do motivo: primeiro contato da pessoa com o assunto ou distração. De fato, como gestora, não me importa saber esse motivo. Pode parecer forte para algumas pessoas, mas eu parto do pressuposto que se um colaborador meu cometeu um erro ao executar uma tarefa, a culpa foi minha por não deixar claro o que precisava ser feito.
E nesses 13 anos, vivi tantos eventos “óbvios”, que você nem pode imaginar.
Os mais engraçados foram relacionados a costureiras. Achei ontem uma anotação de um registro que fiz com intuito de compartilhar no futuro a saga de testar costureiras. O ano era 2015…
Para testar costureiras costumávamos enviar uma quantidade reduzida de um produto para confecção. Junto com as peças cortadas, enviamos uma peça piloto pronta para orientar a confecção e a conferência das peças.
Certo dia, testando uma nova costureira, enviamos 10 kits para ela costurar naninhas de panda. Todos, com o rostinho já costurado, mas com as peças para armar. Sabendo que a parte do pesponto era imprescindível para qualificar uma costureira, enviamos junto apenas a frente de uma naninha de galinha.
Obviamente, explicamos detalhadamente os processos e o motivo do envio daquela parte da naninha da galinha.
Obviamente, mas só para nós.
Pois o que encontramos quando fomos buscar o produto foi, no mínimo, inusitado.
Nomeei-o de Pandalinha.
Nossa costureira conseguiu montar 9 pandas perfeitos. Orelhas, braços e pernas pretas, frente e costas de panda. Exatamente como o protótipo que estava em mãos.
No décimo, inovou.
Montou apenas um, com as costas, orelhas e patas de pandas e a frente toda azul pintadinha com carinha de galinha.
Na hora eu me espantei e pensei: “errei feio, bem na primeira vez eu trouxe uma parte da frente a menos e ela quis mostrar serviço: uniu os dois bichos diferentes pensando que ia ajudar”.
Mas rapidamente, meu pensamento complacente e a compaixão desapareceu. Ela fez um comentário que me deixou em choque!
Erguendo uma parte da Naninha preta de rostinho branco e disse calmamente: “Você viu que sobrou uma peça aqui!!”
Respirei fundo, e respondi: “A senhora se lembra que eu trouxe essa parte da frente da naninha de galinha só para a senhora testar a costura?”
Ela, com um ar de surpresa quase ingênuo: “ Nossa! Agora que você falou, que eu reparei”, e gargalhando: ”Ficou diferente, né?”
Apenas ri, mas a vontade era de chorar. Era óbvio que a peça final não estava nem de perto parecida com a peça piloto, mas por algum motivo, o azul de bolinha se pareceu muito com o peto liso do modelo.
É preciso pensar
Essa situação me fez pensar muito sobre o quanto precisamos ser claros quanto às orientações que damos aos colaboradores. E também sobre o quanto atividades com etapas sequenciais ou complementares não deveriam depender apenas de uma orientação verbal. Um documento escrito, um passo a passo ou, como no caso da costureira, uma ficha técnica poderia ter orientado melhor a execução do serviço.
Precisamos partir do pressuposto de que as pessoas partem de pontos diferentes: têm experiências anteriores, repertórios, formas de interpretar uma orientação e níveis de familiaridade com determinada tarefa diferentes. E isso quer dizer que precisamos reduzir ao máximo os ruídos na comunicação e as margens para interpretações diferentes daquilo que foi solicitado.
O óbvio precisa ser dito. Mas, em alguns processos, também precisa ser escrito, sinalizado e conferido.
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